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Os donos de FIDCs são os novos banqueiros da Faria Lima

.fnFIDC NEWS 02/07/20265 min de leitura1 comentário
Os donos de FIDCs são os novos banqueiros da Faria Lima
Os donos de FIDCs são os novos banqueiros da Faria Lima

Estrutura tributária mais leve, menor custo operacional e um cenário regulatório mais claro têm atraído gestores que buscam escala no crédito sem montar um banco do zero. É essa a leitura de Fabrizio Gueratto, ex-sócio do Banco Modal, em coluna publicada em 2 de julho no E-Investidor (Estadão), sob o título "Investimento não é cassino". O mercado de capitais brasileiro movimentou R$ 283 bilhões em ofertas entre janeiro e maio deste ano, alta de 14,1% na comparação anual, enquanto o universo de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) avança rumo à marca de R$ 1 trilhão em patrimônio.

Contexto: o prestígio do banco perde espaço

Durante décadas, a ambição natural de quem queria ganhar escala no crédito era construir um banco. Ali estavam o prestígio, a licença regulatória, a capacidade de funding e a imagem de poder dentro do mercado financeiro. Segundo Gueratto, essa lógica vem mudando de forma silenciosa e profunda no Brasil: a indústria de fundos como um todo já supera R$ 11 trilhões em patrimônio, e o segmento de FIDCs caminha em ritmo acelerado para uma marca que, até pouco tempo, parecia distante.

Pesa também a dificuldade prática de abrir um banco novo. Na leitura do colunista, o Banco Central vem restringindo a concessão de novas licenças bancárias justamente para conter o risco sistêmico associado ao aumento do número de instituições financeiras, o que empurra quem quer crescer no crédito para estruturas alternativas como o FIDC.

O que mudou: tributação, regulação e diferimento fiscal

O argumento tributário é central na coluna. Um banco pode pagar até 55% de imposto sobre o resultado, enquanto um FIDC recolhe 15% sobre o ganho da cota subordinada júnior, e apenas no momento do resgate. Esse desenho cria um diferimento fiscal relevante: o capital continua se multiplicando ao longo do tempo sem sofrer a corrosão tributária periódica que atinge outras estruturas financeiras.

Isso não significa que o FIDC opere num vácuo regulatório. Gueratto lembra que a estrutura também exige gestor sério, administrador sólido, custodiante, governança, esteira operacional, tecnologia e controle de risco. No desenho normativo, a Resolução 175 e os ajustes recentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) trouxeram mais clareza, padronização e segurança para o setor, sem transformar o FIDC numa miniatura de banco. A diferença central está na lógica econômica: o FIDC é mais leve, mais rápido e mais flexível para transformar recebíveis em negócio escalável, sem o peso de capital regulatório, agências físicas e margem que sustentam uma instituição bancária tradicional.

Análise: "os novos banqueiros da Faria Lima"

Gueratto fala com propriedade sobre os dois lados dessa conta. Como ex-sócio do Banco Modal, ele reconhece que um banco entrega status e, em alguns casos, lucro elevado, mas também consome capital, tempo e margem numa escala que poucos gestores de fora do setor conseguem dimensionar. É por isso, escreve o colunista, que "os donos de FIDCs estão se tornando os novos banqueiros da Faria Lima" e, em alguns casos, já são.

Ele também traz um recorte de mercado a partir da própria atuação. Diz comandar hoje a maior assessoria de imprensa do ecossistema de FIDCs no país e cita ter acompanhado de perto a trajetória de gestoras e estruturadoras que colocaram o fundo no centro da estratégia, entre elas nomes como Multiplike, IOX, Ouro Preto, Audax, Intra, Everblue e Azumi. Para o colunista, essas casas capturaram uma geração de riqueza mais acelerada do que a observada no modelo bancário tradicional.

A coluna faz, ainda, uma distinção importante para quem avalia risco no setor: FIDCs amadores, montados sem musculatura operacional, tendem a desaparecer, ser comprados ou ficar para trás, enquanto o capital relevante migra para fundos profissionalizados, com tecnologia proprietária, backoffice robusto, governança efetiva e capacidade real de análise de crédito e cobrança.

Em conteúdo relacionado publicado junto da coluna, o gestor Daniel Pegorini, da Valora, avalia que os FIDCs vêm atravessando o ciclo recente de juros altos sem piora relevante de risco do ponto de vista sistêmico, ainda que cobrem, segundo ele, um preço alto de quem opera essas estruturas no dia a dia.

Nem todo o mercado compra essa leitura sem ressalva. Nos comentários da publicação original no Instagram do E-Investidor, o perfil cotasubordinada contrapôs o argumento central da coluna ao lembrar que, no FIDC, a perda tem endereço certo, a cota subordinada, e que esse endereço raramente pertence a quem estruturou a operação. O ponto é relevante para o gestor institucional: na cota subordinada, mecanismo que absorve as primeiras perdas de um FIDC antes que cheguem à cota sênior, o risco de crédito fica concentrado em um grupo específico de cotistas, muitas vezes distinto de quem originou a operação. Já no banco, a perda entra direto no capital da própria instituição e aciona mecanismos de supervisão prudencial do Banco Central. São formas diferentes de alocar o mesmo risco, com consequência direta sobre quem paga a conta quando o crédito subjacente não performa.

Perspectivas: o que observar daqui para frente

Para Gueratto, a expansão dos FIDCs não é acaso: reflete uma mudança estrutural na forma como o crédito está sendo originado, distribuído e monetizado no país, e ajuda a explicar por que, em muitos casos, ter um FIDC bem operado passou a ser um negócio melhor do que ter um banco.

O mercado deve acompanhar ao menos quatro frentes daqui para frente: o ritmo de aproximação do patrimônio total de FIDCs à marca de R$ 1 trilhão, a consolidação trazida pela Resolução 175 e por eventuais novos ajustes da CVM, o processo de seleção natural entre FIDCs profissionalizados e estruturas amadoras, e a forma como gestores comunicam a investidores o risco concentrado na cota subordinada, ponto que já gera debate público entre profissionais do setor. A coluna completa, com acesso mediante assinatura, está disponível no E-Investidor, portal do Estadão.


Fontes: Coluna "Investimento não é cassino", de Fabrizio Gueratto, publicada em 02/07/2026 no E-Investidor (Estadão); publicação no Instagram @estadaoinvestidor.

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1 comentário

  • D
    Danilo J S Kahil03/07/2026

    A restrição do Banco Central a concessão de novas licenças bancárias é pela incapacidade de fiscalização do setor. A falta investimentos em tecnologia e pessoas é que pode resultar em risco sistêmico.

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