SoM&A cria plataforma de M&A para pequenas empresas e mira R$ 2,1 bilhões

O mercado de fusões e aquisições (M&A) brasileiro sempre foi um território restrito às grandes companhias, com boutiques especializadas cobrando caro por avaliação, due diligence e negociação. Uma nova plataforma quer mudar essa lógica: usando inteligência artificial para conectar compradores e vendedores de pequenas e médias empresas, a SoM&A projeta faturar R$ 2,1 bilhões por ano até 2027, um movimento que também acende um alerta para o mercado de crédito privado, historicamente pouco presente no financiamento desse tipo de operação.
Um mercado de M&A concentrado no topo
O Brasil registrou 1.581 transações de M&A em 2025, movimentando cerca de R$ 51 bilhões, segundo dados citados pela SoM&A. Desse total, aproximadamente R$ 14 bilhões vieram de operações no chamado middle market, empresas com receita entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões. Abaixo dessa faixa, o silêncio é quase absoluto.
Boutiques especializadas em M&A costumam atender apenas empresas com faturamento acima de R$ 50 milhões, um corte que faz sentido do ponto de vista financeiro: avaliação, auditoria, análise jurídica e negociação exigem horas de trabalho especializado, o que torna inviável atender operações menores com a mesma estrutura de custos.
O resultado é um universo praticamente inexplorado. O país reúne 25,9 milhões de CNPJs classificados como pequenas e médias empresas (PMEs), o equivalente a 97% das empresas nacionais, responsáveis por 52% dos empregos formais e cerca de 30% do PIB. Desse total, 18,8 milhões faturam menos de R$ 50 milhões por ano, exatamente o público que a nova plataforma pretende atender. A estimativa da empresa aponta um mercado potencial de R$ 94 bilhões anuais.
O "Tinder" dos M&As
A SoM&A foi fundada por Mary Mizuno, executiva com mais de três décadas de carreira em instituições como Mastercard, Citi e Santander, onde chegou à vice-presidência para a América do Sul. Depois de estudar inovação no Vale do Silício e vender uma startup de chatbots que atendeu clientes como Citi, Banco PAN e Magazine Luiza, Mizuno encontrou inspiração para o novo negócio ao acompanhar casos de sucessão familiar: sem comprador definido, empresas costumam demitir funcionários, liquidar equipamentos e restar apenas o imóvel como ativo de valor.
A plataforma funciona por assinatura, com empresários pagando o equivalente a um salário mínimo por ano para acessar valuation preliminar, análise de crédito, certidões negativas, due diligence e simuladores financeiros. O algoritmo, desenvolvido sobre infraestrutura da AWS, cruza localização, setor, faixa de receita, valor do negócio, capacidade financeira e apetite ao crédito para sugerir entre dez e vinte compradores ou vendedores com maior probabilidade de fechar negócio.
A operação começou pelo setor de franquias, que movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano e concentra pequenos empresários. Hoje a plataforma reúne negociações de marcas como Lupo, Óticas Center e GiOlaser, além de empresas de logística e cibersegurança com faturamento entre R$ 5 milhões e R$ 15 milhões.
Por que isso interessa ao mercado de crédito
Do ponto de vista do investidor em crédito privado, o movimento da SoM&A expõe uma lacuna relevante: operações de M&A envolvendo PMEs costumam carecer de financiamento estruturado, seja para o comprador viabilizar a aquisição, seja para o vendedor antecipar recebíveis durante a transição. É justamente nesse tipo de operação que estruturas como FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e outras soluções de securitização poderiam ganhar espaço, oferecendo funding para transações que hoje dependem quase exclusivamente de capital próprio ou financiamento bancário tradicional.
"A digitalização do processo de M&A para pequenas empresas tende a gerar um volume relevante de operações que hoje simplesmente não existem por falta de estrutura", avaliam analistas do mercado de crédito. A padronização trazida por plataformas de matchmaking, com due diligence e análise de risco automatizadas, também reduz a assimetria de informação, um dos principais obstáculos para estruturar crédito em operações de menor porte.
O que vem a seguir
A SoM&A ainda opera em fase de MVP, com todo o desenvolvimento financiado por capital próprio. O próximo passo da fundadora é buscar investidores para acelerar a expansão da plataforma, fortalecer a marca e ampliar a operação comercial, hoje concentrada no setor de franquias.
Para o mercado de crédito privado, o caso merece acompanhamento: se o volume de transações de M&A entre PMEs de fato crescer na proporção projetada pela startup (6 mil operações anuais até o fim de 2027), a demanda por soluções de financiamento estruturado para esse segmento pode se tornar um novo nicho de originação para gestores e estruturadores de FIDC atentos ao middle e ao low market.
Fontes: Exame, "Ex-Mastercard cria o 'Tinder' para compra e venda de pequenas empresas e mira R$ 2 bilhões", Isabela Rovaroto, 8 de julho de 2026.
FIDC NEWS
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