Sicoob projeta R$ 70 bi na safra 2026/2027 e mira carteira agro de R$ 100 bilhões

Em coletiva realizada nesta manhã em Brasília (DF), o Sicoob anunciou a projeção de desembolso de R$ 70 bilhões em crédito rural para a safra 2026/2027, valor 17,6% acima do liberado na temporada anterior. O anúncio ocorre em um cenário de retração do crédito agrícola no país e de alta da inadimplência no setor, mas a cooperativa financeira optou por manter o ritmo de crescimento.
Contexto: um ciclo de expansão que não parou
O Sicoob vem ampliando sua presença no crédito rural safra após safra. Na temporada 2024/2025, a cooperativa desembolsou R$ 55,6 bilhões para o agronegócio. Na safra seguinte, 2025/2026, o valor anunciado foi de R$ 60 bilhões, e o efetivamente liberado chegou a R$ 59,5 bilhões, próximo do planejado.
Segundo os executivos da instituição, o market share do Sicoob já corresponde a cerca de 8% do mercado de crédito rural brasileiro. Ao considerar também as CPRs (Cédulas de Produtor Rural), a fatia sobe para cerca de 9%. É nesse contexto que a cooperativa projeta chegar perto de R$ 100 bilhões em saldo devedor na carteira agro, patamar que a coloca entre os maiores financiadores do campo no país.
"Faltou um pouco para cumprir a projeção em 2025/2026, mas chegamos muito perto. A notícia boa é o ticket médio, que se manteve na casa dos R$ 305 mil. Com isso, estamos próximos de fechar a nossa carteira agro, em saldo devedor, em R$ 100 bilhões", afirmou o diretor-presidente do Sicoob, Marco Aurélio Almada.
O fato central: R$ 70 bilhões, com foco no pequeno e médio produtor
Dos R$ 70 bilhões previstos para a nova safra, R$ 15,8 bilhões serão destinados ao Pronamp (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) e R$ 11,5 bilhões ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). O restante, pouco mais de R$ 40 bilhões, vai para os demais produtores. Se confirmados, os desembolsos do Pronamp e do Pronaf crescerão 37% e 39%, respectivamente, ante a safra passada, enquanto o restante da carteira deve avançar 5%.
Por linha de crédito, o custeio segue como prioridade, com R$ 32 bilhões projetados (alta de 50% frente ao desembolsado na safra anterior). Os investimentos somam R$ 18,7 bilhões, crescimento de 63%. Já as CPR-F sem destinação específica devem recuar 34%, para R$ 12,6 bilhões, o crédito para comercialização deve cair 4%, para R$ 4,3 bilhões, e a linha de industrialização deve encolher 30,5%, para R$ 1,9 bilhão.
Segundo Marcelo Carneiro Costa, diretor comercial e de canais do Sicoob, os sinais trocados entre as linhas refletem a decisão estratégica de priorizar produtores de pequeno e médio porte: na safra que se encerrou agora, 63% das operações do Sicoob atenderam esse público, com R$ 8,2 bilhões desembolsados no Pronaf, R$ 10,7 bilhões no Pronamp e R$ 40,5 bilhões nas demais linhas, somando 194,7 mil contratos em 12 meses. Por cultura, a pecuária liderou os desembolsos, com R$ 9,5 bilhões, seguida por cafeicultura, soja, leite, compra de tratores, correção de solo e armazenagem.
Análise: inadimplência dobra em quatro safras, mas segue abaixo da média do mercado
O apetite do Sicoob por crescimento convive com uma deterioração visível na qualidade da carteira rural. Segundo Raphael Santana, gerente institucional de Agronegócios do Sicoob, a inadimplência do segmento na cooperativa era de apenas 0,08% há quatro safras. Hoje, considerando atrasos acima de 90 dias, o indicador está em 2,01%. "Mais que dobramos em quatro safras e essa é uma inadimplência que nunca tivemos. Ainda assim, bem menor do que o mercado apresenta", disse o executivo.
As renegociações também cresceram: foram R$ 960 milhões em pedidos na safra 2024/2025 e R$ 1,6 bilhão na safra que se encerra agora, volume que, segundo Santana, ainda é administrável dentro de uma carteira de quase R$ 100 bilhões. Ele atribui parte da cautela na projeção da nova safra ao monitoramento dos efeitos do El Niño, o que levou a instituição a moderar o ritmo de crescimento em relação a anos anteriores. Ainda assim, o executivo pondera que os estados com maior participação do Sicoob (Minas Gerais, Espírito Santo, Roraima, São Paulo e Goiás) não sofrem, historicamente, grandes impactos com o fenômeno climático, o que sustenta a decisão de seguir crescendo mesmo com o risco em alta.
Perspectivas: cooperativismo ganha espaço enquanto banco público recua
O anúncio do Sicoob contrasta com o movimento do Banco do Brasil, apontado pelo diretor-presidente Marco Almada como o "principal agente de crédito se retraindo". O BB projetou R$ 230 bilhões para a safra 2025/2026, mas desembolsou R$ 209 bilhões; para 2026/2027, a instituição federal anunciou R$ 210 bilhões, R$ 1 bilhão acima do efetivamente liberado no ciclo anterior, mas abaixo do valor prometido um ano antes.
Nesse cenário, Almada reforça o discurso de posicionar o Sicoob como "agente perene do produtor rural", justamente quando o principal financiador tradicional do campo reduz o apetite. A cooperativa também destacou sua base: são mais de 10 milhões de cooperados, 4,6 mil pontos de atendimento em todos os estados, presença em 2,5 mil cidades e mais de 600 mil produtores rurais no ecossistema de suas cooperativas. Para o mercado de crédito rural e cooperativo, o movimento reforça uma tendência que deve seguir em pauta: a de cooperativas financeiras ocupando espaços deixados por bancos tradicionais mais seletivos, mesmo em um ciclo de inadimplência crescente no crédito ao agronegócio.
Fonte: AgFeed
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
Ler todas as notíciasComentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *








