Ruiz Coffees suspende pagamentos a credores do mercado de capitais

Segunda maior produtora de café do País aciona a Justiça para conter o vencimento de dívidas ligadas a CRAs enquanto negocia acordo com credores
Ruiz Coffees obtém cautelar e suspende pagamentos a credores por 60 dias
A Ruiz Coffees, segunda maior produtora de café do Brasil, conseguiu na Justiça uma medida cautelar que suspende por 60 dias os pagamentos de todas as suas dívidas. A decisão, mantida em sigilo, expõe a fragilidade financeira de um grupo que expandiu suas operações nos últimos anos com forte apoio do mercado de capitais, incluindo Fiagros que hoje figuram entre seus credores.
Contexto: uma expansão financiada por CRI e CRAsA Ruiz Coffees cultiva mais de 9 mil hectares de café arábica distribuídos entre Minas Gerais e Bahia. Desde 2021, o grupo passou a recorrer ao mercado de capitais para financiar seu crescimento, começando com a emissão de um CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e, na sequência, de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Esses instrumentos permitem que produtores rurais captem recursos diretamente com investidores, com isenção fiscal para pessoas físicas, o que tornou a modalidade especialmente atrativa para o agronegócio brasileiro na última década.
Parte relevante dessa captação chegou ao mercado por meio de Fiagros, fundos de investimento nas cadeias produtivas agroindustriais listados na B3. Entre os credores da Ruiz estão o Vectis (VCRA11), o Galápagos (GCRA11) e o Suno (SNAG11), este último com exposição de 5,67% do seu patrimônio líquido ao produtor. Considerando apenas os CRAs, as dívidas da Ruiz somam pelo menos R$ 300 milhões.
O fato central: cautelar concedida em segredo de justiçaA cautelar foi concedida na última segunda-feira pelo juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf, da Vara Regional Empresarial de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. A medida suspende os pagamentos das dívidas do grupo por 60 dias, período dentro do qual a Ruiz precisa negociar um acordo com os credores. Caso isso não aconteça, o processo pode evoluir para uma recuperação judicial.
O grupo, hoje comandado por João Luiz Lourenço Filho após a morte do patriarca em março de 2025, citou no pedido enviado à Justiça a proximidade dos vencimentos de operações do mercado de capitais como um risco direto à sua solvência. A deterioração da situação financeira já circulava informalmente entre gestores da Faria Lima nas últimas semanas, mas havia dúvida sobre até que ponto o produtor chegaria a essa medida judicial.
Análise: alienação fiduciária muda o jogo para os credoresUm eventual pedido de recuperação judicial da Ruiz teria um obstáculo relevante para o grupo: para sustentar sua expansão, a empresa deu diversas fazendas em alienação fiduciária como garantia das operações. Esse tipo de garantia costuma ficar de fora do processo de recuperação judicial, o que oferece proteção adicional aos credores frente aos demais.
Os três Fiagros credores (Vectis, Galápagos e Suno) têm justamente a alienação fiduciária como garantia em suas operações com a Ruiz. Na prática, isso significa que, mesmo que a Justiça brasileira seja historicamente lenta para executar garantias, as fazendas dadas em garantia deveriam eventualmente passar ao controle dos fundos, caso o acordo não avance. Para gestores de Fiagros, o caso reforça a importância da estrutura de garantias na análise de risco de crédito ligado ao agronegócio, especialmente em operações concentradas em um único originador.
O que diz a Ruiz e o que esperar daqui para frenteEm nota, a Ruiz Coffees afirmou manter "absoluta conformidade com as normas legais" e disse não comentar detalhes de processos sob segredo de justiça. A companhia garantiu que suas operações produtivas seguem normais, com colheita, beneficiamento e distribuição de café mantidos sem interrupção, e reafirmou compromisso com a transparência e com o diálogo com credores e investidores.
Nos próximos 60 dias, o mercado deve acompanhar de perto se a Ruiz consegue fechar um acordo com seus credores ou se o caso migra para uma recuperação judicial formal. Para os cotistas dos Fiagros expostos ao grupo, o desfecho tem impacto direto sobre o valor das cotas e sobre a percepção de risco de crédito agrícola lastreado em garantias imobiliárias rurais.
Fontes: The AgriBiz (matéria original de Luiz Henrique Mendes e Karina Souza, publicada em 01/07/2026)
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