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Inadimplência no limite: BC acende alerta e fintechs devem sentir o golpe primeiro

.fnFIDC NEWS 30/06/20266 min de leituraSem comentários
Inadimplência no limite BC acende alerta e fintechs devem sentir o golpe primeiro
Inadimplência no limite BC acende alerta e fintechs devem sentir o golpe primeiro

Imagem: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

O Banco Central prevê atrasos em níveis históricos para os próximos meses. Quem atende o público de menor renda com crédito sem garantia está na linha de frente da tempestade, e o impacto já aparece nos números de mercado.

Contexto: um ciclo de expansão que encontrou a inadimplência no caminho

O mercado de crédito brasileiro viveu nos últimos anos um ciclo de expansão sem precedentes. As fintechs e os bancos digitais foram os grandes protagonistas desse movimento, abrindo o sistema financeiro para um público historicamente excluído. Cerca de 61 milhões de brasileiros ganharam acesso a serviços financeiros formais nesse período. Com isso, essas instituições passaram a atender com exclusividade quase metade dos clientes de cartão de crédito e mais da metade dos tomadores de empréstimo pessoal no país.

O crescimento foi expressivo. Dados da Equifax BoaVista mostram que o saldo de crédito ativo em bancos digitais e fintechs avançou mais de 360% entre 2021 e 2025. Só que junto com o crescimento veio a deterioração das carteiras. No mesmo período, a inadimplência em cartão de crédito nessas instituições saltou de 7,71% para 20,31%. No empréstimo pessoal, a taxa foi de 6,55% para 13,93%. São números que revelam o custo de crescer rápido demais em crédito sem garantia.

O fato central: BC projeta recorde de inadimplência e aponta o crédito livre como epicentro

O Banco Central (BC) divulgou, em 25 de junho de 2026, o seu Relatório de Política Monetária com um diagnóstico que reacendeu o debate sobre sustentabilidade do crédito no Brasil. Segundo o documento, os atrasos em pagamentos das famílias seguem em patamar historicamente elevado desde o início deste ano, e a projeção é de que a inadimplência bata um novo recorde nos próximos meses.

O endividamento e o comprometimento da renda das famílias permanecem em níveis altos. De acordo com o BC, a alta recente da inadimplência vem principalmente do crédito livre, com destaque para o aumento nos atrasos de financiamento de veículos, crédito pessoal não consignado e crédito consignado para trabalhadores do setor privado.

O relatório reconhece que medidas recentes de renegociação de dívidas de pessoas físicas devem reduzir a taxa de inadimplência nas linhas elegíveis nos próximos meses. Mesmo assim, o diagnóstico atual é claro: o sistema está sob pressão, e parte relevante dessa pressão está concentrada fora dos grandes bancos.

Os dados do próprio BC reforçam essa leitura estrutural. As instituições fora do grupo S1, que reúne os maiores bancos do país, já respondem por 55% do estoque de inadimplência em cartão tendo apenas 45% da carteira total. No empréstimo pessoal, essas mesmas instituições respondem por 60% dos atrasos com 55% da carteira. Como Rafael Nakamoto e Victoria Lopes Iori, executivos da fintech Vitório, resumem: "O risco migrou estruturalmente para fora dos bancões."

Análise: carteira sem garantia e custo de funding são os dois talões de Aquiles

A combinação de crédito sem garantia com um público de acesso recente ao sistema financeiro cria uma vulnerabilidade particular para as fintechs e bancos digitais. Quem trabalha com "crédito sem garantia mar aberto", nas palavras dos executivos da Vitório, acaba sofrendo primeiro em ciclos de deterioração do crédito.

Um levantamento do BTG Pactual sobre os saldos vencidos ilustra a diferença de exposição. Nos cartões emitidos por bancos digitais, a parcela de saldos vencidos subiu de 5,77% para 11,16%. Nos bancos tradicionais, a deterioração foi consideravelmente menor, de 6,60% para 8,75%. A distância entre os dois grupos é reveladora.

Mas há um segundo vetor de vulnerabilidade que vai além da composição da carteira. Enquanto os grandes bancos captam depósitos a custo relativamente baixo, as fintechs dependem de instrumentos como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), securitização e crédito privado para financiar suas operações. Em um ambiente de juros elevados e maior risco percebido, esse custo de captação pressionado pode comprometer a margem e a capacidade de crescimento dessas instituições.

Vanderson Aquino, CEO do grupo financeiro Mêntore e especialista em gestão financeira e estratégia empresarial, situa o problema com precisão: "Instituições com maior exposição a carteiras de maior risco naturalmente sentirão mais os efeitos da inadimplência. O ponto central, porém, é outro: como manter a oferta de crédito de forma responsável em um ambiente mais difícil."

Para ele, o maior teste não está apenas em conter perdas, mas em sustentar o financiamento de empresas e famílias mesmo em condições mais apertadas. "É natural que, diante de um cenário de maior risco, as instituições financeiras revisem seus critérios de concessão de crédito. O ideal, porém, é que esse movimento seja feito de forma seletiva, e não generalizada", avalia o CEO. Restringir o crédito de forma indiscriminada pode frear investimentos, consumo e geração de renda para um público que só recentemente passou a ser atendido.

Perspectivas: três caminhos para um novo modelo de crescimento

A fase de expansão acelerada a qualquer custo parece estar chegando ao fim. Victoria Lopes Iori aponta que parte significativa do crescimento recente ficou concentrada em poucos nomes do setor. Um levantamento do Goldman Sachs mostra que a originação líquida de uma única fintech superou a soma de todo o grupo S2 no primeiro trimestre de 2026. Esse nível de concentração, em um ambiente de inadimplência crescente, impõe uma revisão de rota.

A virada de estratégia já está em andamento e segue três caminhos principais. O primeiro é a migração para crédito com garantia e prazo curto. Entram nessa frente o consignado privado, viabilizado pela Lei 15.179/2025 e operado via Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) Digital, a antecipação de recebíveis e o supply chain finance entre empresas. Operações com lastro real, como antecipação de recebíveis com agenda registrada, supply chain finance com duplicata escritural e contratos com gravame ou cessão fiduciária, representam um perfil de risco estruturalmente diferente do crédito sem garantia.

O segundo caminho passa por estruturar o funding por meio de FIDCs, com uso de subordinação de cotas e sobrecolateralização para precificar melhor o risco das safras recentes. O terceiro é de natureza prudencial e envolve a adequação aos contratos de originação à luz da Resolução CMN 4.966, norma que estabelece regras contábeis para Instituições Financeiras (IF) e Sociedades de Crédito Direto (SCD).

"A fintech que opera via parceiro regulado vai ter de internalizar a lógica da 4.966 nos contratos de originação. A deterioração de safra hoje aparece no balanço do parceiro IF/SCD. Contrato que joga risco para o parceiro sem precificar provisão é problema esperando para acontecer", alerta Victoria Lopes Iori.

A tecnologia pode ajudar na transição. Vanderson Aquino lembra que o mercado evoluiu muito e que hoje tanto fintechs quanto instituições financeiras tradicionais utilizam ferramentas sofisticadas de análise de dados, Inteligência Artificial e monitoramento de carteiras. Ainda assim, ele pondera: "Mas isso não elimina os efeitos de uma deterioração econômica. Permite decisões mais rápidas e uma gestão de risco mais eficiente", completa.

O cenário que se desenha aponta para um mercado de crédito mais seletivo, com foco crescente em qualidade de carteira, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo. Para as fintechs que fizerem essa transição com disciplina, o ambiente adverso pode ser, paradoxalmente, uma oportunidade de consolidação. Para quem insistir na expansão sem critério, o recado do BC já está dado.


Fontes: Relatório de Política Monetária do Banco Central (25/06/2026); Finsiders Brasil; dados Equifax BoaVista; BTG Pactual; Goldman Sachs; Itaú BBA

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O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.

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