Crédito ao agro fica mais restritivo após recorde de recuperações judiciais em 2025

Depois de um ano marcado pelo maior volume histórico de recuperações judiciais no campo, o agronegócio brasileiro entra na nova safra de grãos, iniciada em 1º de julho, sob um ambiente de crédito bem mais seletivo. Bancos, cooperativas e gestoras devem elevar o rigor na exigência de garantias e colaterais, movimento que já reconfigura a política de crédito do Banco do Brasil e reforça o uso da alienação fiduciária como instrumento de proteção nas operações do setor.
Contexto: recorde de recuperações judiciais pressiona o crédito rural
Em 2025, o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio saltou 56,4% em comparação com o ano anterior, segundo dados da Serasa Experian, o maior volume desde o início da série histórica, em 2011. O salto colocou em xeque o modelo tradicional de concessão de crédito ao produtor rural e acendeu um sinal de alerta entre as instituições que financiam a cadeia do agro, das tradings aos bancos e gestoras de fundos estruturados.
Esse cenário é especialmente sensível para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), peça relevante no financiamento do agronegócio brasileiro ao adquirir recebíveis originados por produtores, cooperativas e empresas ligadas à cadeia produtiva. O aumento das RJs eleva o risco de crédito embutido nessas carteiras e tende a reforçar a seletividade de gestoras na hora de aceitar novas cessões.
O que mudou: BB reforça alienação fiduciária e reduz peso da hipoteca
O cenário levou a ajustes na oferta de crédito pelo Banco do Brasil, historicamente um dos maiores fornecedores de crédito ao setor. Segundo Alberto Martinhago, diretor de Agronegócios e Agricultura Familiar do BB, em resposta por e-mail à reportagem, o banco aprimorou seus modelos de análise na concessão de crédito e vem reforçando o uso de instrumentos que proporcionem maior segurança jurídica, com destaque para a alienação fiduciária, já que determinados ativos vinculados a essa garantia não se submetem aos efeitos da recuperação judicial.
Segundo Martinhago, o banco passou a olhar com maior atenção desde o fluxo de caixa até as garantias e o histórico financeiro dos produtores, sobretudo em regiões e atividades mais sensíveis, além de manter modelos de análise de risco robustos e em constante revisão. De forma geral, o histórico de pagamentos, a capacidade de geração de caixa, o nível de endividamento, a qualidade das garantias e fatores como alavancagem compõem hoje a avaliação de crédito do banco.
"Seguimos apoiando o agronegócio e a agricultura familiar, com créditos concedidos de forma mais técnica e qualificada", afirmou Martinhago, para quem a medida visa à perenidade dos negócios tanto do produtor quanto do próprio BB, ao ofertar o crédito certo, na medida certa, garantindo sustentabilidade no longo prazo.
Tradicionalmente, os bancos usam a hipoteca como colateral nos empréstimos ao agronegócio. O problema, segundo fonte ouvida pela reportagem, é que o crédito com garantia hipotecária entra na classe de credores com garantia real dentro da recuperação judicial, o que torna a recuperação dos bens muito mais lenta do que no modelo de alienação fiduciária.
Análise: pior momento passou, mas cautela prevalece, diz CEO da Audax Capital
Na avaliação de Pedro da Matta, CEO da Audax Capital, casa de crédito com forte atuação e especialização na cadeia do agronegócio, o pior momento do setor já ficou para trás, mas o mercado se estabiliza em um patamar ainda difícil. Mesmo o fenômeno climático El Niño deve ter impacto limitado sobre a safra brasileira de milho. "Nem todas as regiões do país são afetadas da mesma forma pelo El Niño", afirmou Matta, para quem o fenômeno tende a causar impacto maior nas quebras de safra em outros países, o que pode até resultar em melhora de preços internacionais e de margens para o produtor brasileiro na próxima temporada de grãos.
"Não é o caso de recuperação do setor, mas sim de menos ruim para o setor", resumiu Matta, lembrando que os índices de recuperação judicial no agro seguem em patamares bem mais altos do que nos anos anteriores. Segundo ele, o momento de crédito mais escasso afastou do mercado arrendatários e produtores menos preparados, que haviam entrado no negócio durante o boom de crédito farto da pandemia e hoje enfrentam dificuldades. Ficaram no mercado, avalia Matta, os produtores que efetivamente sabem operar e já acumulam experiência no setor. Como reflexo, o Banco do Brasil reduziu a oferta de crédito para operações de menor retorno, movimento que abriu espaço para outras gestoras locais atuarem no financiamento do produtor rural.
Perspectivas: financiamento privado ganha força, mas também precisa ajustar garantias
Para Octaciano Neto, ex-secretário de Agricultura e cofundador e CEO da Zera.ag, plataforma especializada em soluções de capital, crédito e financiamento privado para o setor, o agronegócio viveu um problema conjuntural, não estrutural. O setor saiu de um cenário de Selic entre 3% e 4% e soja a R$ 190 a saca em 2021 e 2022 para uma inversão brusca, com a Selic subindo a 15% e a soja recuando para cerca de R$ 100 a saca, o que apertou o caixa de produtores que se alavancaram além da conta nesse período.
A entrada do financiamento privado no mercado de capitais trouxe avanços regulatórios concretos para o setor, com a Lei do Agro 1 e a Lei do Agro 2, marcos que contribuíram para a modernização do mercado de crédito privado ao agronegócio no Brasil, segundo Neto. Foi justamente com o crescimento desse financiamento privado que o mercado passou a identificar falhas na execução de garantias, sobretudo na hipoteca, em razão da forma como esse tipo de crédito é tratado dentro da recuperação judicial.
Por isso, além da alienação fiduciária, outras estruturas de garantia vêm sendo desenhadas para o setor, entre elas transferir o ativo para um fundo imobiliário, no qual o produtor rural entra como cotista subordinado e o financiador de maior volume de crédito como cotista sênior, retirando a titularidade do bem das mãos do produtor e mantendo a garantia fora do alcance de eventual processo de recuperação judicial. Segundo Neto, o mercado de financiamento privado ao agro vem corrigindo essas falhas regulatórias e buscando novos caminhos para robustecer o processo de garantias.
Além das gestoras, as tradings também vêm aumentando o financiamento ao produtor rural neste momento, destacou Neto, ainda que o cenário não seja uniforme entre culturas: produtores de café navegam bem no período atual, enquanto produtores de soja e milho enfrentam mais desafios, sobretudo no financiamento via operações de barter oferecidas por tradings, em que o produtor adquire insumos e paga a conta com parte da safra futura após a colheita, sem desembolso inicial em dinheiro.
Fonte: Capital Aberto, 30/06/2026. URL: https://capitalaberto.com.br/mercados/agronegocio-credito-nova-safr
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