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Brasil cai para 65ª posição em competitividade e financia consumo no lugar de produção

.fnFIDC NEWS 26/06/20267 min de leituraSem comentários
Brasil cai para 65ª posição em competitividade e financia consumo no lugar de produção
Brasil cai para 65ª posição em competitividade e financia consumo no lugar de produção

Com a indústria reduzida a um terço do peso que já teve no PIB e o crédito migrando para famílias em vez de empresas, o país acumula desequilíbrios que os dados de inadimplência de 2026 já começam a revelar.

Queda livre no ranking de competitividade

O Brasil caiu para a 65ª posição entre 70 economias avaliadas no Ranking Mundial de Competitividade de 2026, elaborado pelo IMD World Competitiveness Center em parceria com a Fundação Dom Cabral. A queda foi de sete posições em relação a 2025, quando o país havia chegado à 58ª colocação, sua melhor marca desde 2020. É a pior posição absoluta já registrada pelo país na série histórica.

O ranking avalia quatro pilares: desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura. O Brasil piorou em todos. A maior queda ocorreu na eficiência dos negócios, que perdeu onze posições. O dado mais revelador para quem opera no mercado de crédito estruturado é o custo de capital: o país aparece na última posição global nesse quesito. O próprio levantamento associa esse resultado aos juros elevados, que encarecem decisões de investimento e reduzem a previsibilidade financeira dos projetos.

Custo de capital em último lugar não é uma estatística isolada. É o preço que a economia paga para transformar poupança em investimento produtivo. Quando esse preço é o mais alto do mundo, a consequência aparece na atividade que mais depende de capital de longo prazo: a indústria.

Em 40 anos, a indústria encolheu para um terço do que já foi

A perda de competitividade tem um retrato de longo prazo na trajetória da indústria de transformação. Pelas Contas Nacionais, o setor representava 35,9% do valor adicionado da economia em 1985 e recuou de forma quase contínua desde então, chegando a 11,3% em 2021, uma das menores participações da série histórica.

O movimento não é cíclico. Ele atravessa governos, ciclos econômicos e regimes cambiais distintos. A literatura econômica associa esse encolhimento a fatores estruturais: a abertura comercial dos anos 1990, a carga tributária, os gargalos de infraestrutura e, de forma recorrente, o custo do capital. O resultado é uma economia que foi perdendo densidade industrial e ganhando peso em atividades de menor valor agregado.

Dados da UNIDO sistematizados pelo IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) reforçam esse retrato. Enquanto a indústria de transformação mundial acelerou de 2,1% em 2024 para 3,9% em 2025, a brasileira saiu de 3,2% para 0,1% no mesmo período, praticamente estagnação. No ranking de crescimento da produção industrial, o Brasil caiu da 24ª posição em 2024 para a 64ª em 2025, entre 83 países, a pior colocação desde 2022.

O crédito dobrou, mas foi para o consumo

No mesmo período em que a indústria perdeu peso, o crédito ganhou. A relação entre o saldo de crédito e o PIB praticamente dobrou em duas décadas, saindo de cerca de um quarto da economia no início dos anos 2000 para mais da metade hoje. Crédito em expansão, em si, é sinal de amadurecimento financeiro. O problema está em para onde ele foi.

Em 2007, o crédito a pessoas físicas equivalia a 14% do PIB e o crédito a pessoas jurídicas, a 16,6%. A economia ainda emprestava mais para empresas do que para famílias. Em 2024, o quadro se inverteu de forma expressiva: o crédito a pessoas físicas saltou para 33,4% do PIB, enquanto o crédito a pessoas jurídicas avançou bem menos, para 21%. O crescimento do endividamento foi puxado pelo consumo, não pela produção.

Os dados mais recentes confirmam que essa tendência não se esgotou. No crédito livre (o segmento mais sensível às condições de mercado), o saldo das pessoas jurídicas cresceu apenas 0,6% em abril de 2026, ante 9,5% em 2024. O crédito livre a pessoas físicas, no mesmo período, manteve expansão de 11,7% em doze meses. O crédito que sustenta a atividade produtiva está retraindo justamente quando o crédito ao consumo segue firme.

A inadimplência denuncia o descompasso

Quando o endividamento cresce sem ganho correspondente de renda e de competitividade, a conta aparece na inadimplência. Em abril de 2026, a inadimplência da carteira total atingiu 5,4% entre as pessoas físicas, com alta de 1,3 ponto percentual em doze meses, contra 2,8% entre as pessoas jurídicas, com alta de apenas 0,3 ponto. No crédito livre, a distância é ainda maior: 7,2% de inadimplência das famílias contra 3,6% das empresas.

O segmento que mais ampliou o endividamento é o mesmo que mais atrasa pagamentos. Para Volnei Eyng, fundador e CEO da Multiplike, isso não é coincidência. Trata-se do sintoma de um modelo em que o crédito deixou de financiar a expansão da capacidade produtiva e passou a sustentar o padrão de consumo corrente.

Um país que se sustenta no crédito: uma hora a conta chega

O encadeamento dos dados sugere uma cadeia clara de causa e efeito. A perda de competitividade encarece e dificulta a atividade empresarial, em um ambiente que combina alto custo de capital com complexidade tributária e insegurança jurídica. Esse ambiente desestimula o investimento produtivo e contribui para a desindustrialização. Em paralelo, a economia recorre ao crédito para sustentar o consumo, sem o ganho de produtividade que daria lastro a esse endividamento. A inadimplência crescente é a evidência de que o descompasso já se materializa.

Em sua análise, Eyng usa uma metáfora precisa: o Brasil se comporta, no agregado, como uma família que vive anos bons gastando mais do que arrecada. Para manter o padrão de consumo acima da renda, ela recorre ao limite extra do cartão e ao crédito. Funciona por um tempo, e durante esse tempo até parece que a vida melhorou. Mas o mecanismo tem um fim previsível.

A primeira parte da conta já chegou, e ela se chama inadimplência. Quando o endividamento cresce mais rápido que a renda, uma parcela cada vez maior dos tomadores deixa de conseguir pagar, exatamente o que os dados de abril de 2026 mostram, com a inadimplência das famílias subindo bem mais do que a das empresas. A segunda parte chega quando o limite se esgota de vez. O Brasil viveu esse momento em 2015 e 2016, quando o PIB caiu cerca de 3,5% em cada ano, na maior recessão desde 1948.

O que vem depois é consequência direta: a recessão derruba a arrecadação e pressiona os preços, a inflação corrói a renda que restou, o desemprego sobe e a pobreza aumenta. A redução recente da pobreza, segundo Eyng, apoiou-se em grande medida no uso do crédito incentivado, e não em melhora dos fundamentos estruturais. Por isso ela é frágil: um avanço social construído sobre endividamento, e não sobre competitividade e produtividade, não tem como se sustentar.

O que vem a seguir: competitividade e crédito produtivo como uma só agenda

A análise de Eyng não aponta para uma catástrofe inevitável, mas para um cenário de risco que exige mudança de rota. A saída não passa por restringir crédito, mas por melhorar o ambiente que hoje torna a atividade empresarial cara e arriscada, de modo que o crédito volte a financiar investimento e produção, e não apenas consumo. Competitividade e crédito produtivo são, na leitura do autor, duas faces da mesma agenda.

Para o mercado de crédito estruturado e para os operadores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), o cenário tem implicações diretas. Uma carteira composta majoritariamente por recebíveis de consumo de pessoas físicas, em um ambiente de inadimplência crescente e compressão de renda, exige precificação de risco mais cuidadosa e atenção redobrada à qualidade dos originadores. O crédito produtivo, que financia o ciclo de empresas com atividade real, tende a ganhar relevância como diferencial de portfólio nos próximos ciclos.

O diagnóstico está posto. A questão é se os ajustes necessários virão antes ou depois do próximo ciclo de contração.


Esta matéria é baseada na análise "O Brasil vive no cheque especial, e o limite tem fim", publicada por Volnei Eyng na newsletter Eyng&Mercado em 26 de junho de 2026. Volnei Eyng é fundador e CEO da Multiplike, com mais de R$ 70 bilhões em crédito estruturado para médias e grandes empresas. Acesse o original: https://www.linkedin.com/pulse/o-brasil-vive-cheque-especial-e-limite-tem-fim-volnei-eyng-fbexf/

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O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.

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